
Ás vezes tenho essa mania de não querer forjar intimidade como desculpa pra manter uma certa distância das pessoas, que sirva de margem de segurança para mim mesma. Não se trata de evitá-las, mas de conviver com elas sem interagir. Se por algum acaso houver admiração piora, porque daí surge então essa mescla de "bon senso" com "falsa humildade", já que no fundo todos sofremos de algum tipo de arrogância intelectual por estarmos um pouco acima da média, o que no entanto é ridiculamente fácil se tratando de uma realidade como a nossa. Todo tímido é um convencido ao contrário, e quem diz isso é Freud, nem sou eu... portanto não contesto, Jesus eu contesto, ele não. Só por isso assumo vergonhosamente meus defeitos inconscientes, já que eu os enxergo: a psicanálise curou minha miopía. Com essa bagagem de caos humano me sentei por tantas vezes com tanta gente na mesa do bar e nunca nem disse um "oi", no dia seguinte nenhum " boa noite", e minha teoria é de que não vão se lembrar da minha cara e eu me poupo o constrangimento de não ser cumprimentada de volta. Desse modo vou construindo uma invisibilidade psicológica bastante confortável, porque na verdade não sou uma pessoa discreta e isso acaba sendo uma espécie de frustração. Sou uma mulher grande, desastrada, com a voz alta, o riso fácil e frequentemente falo palavrões. Não sou um tipo vulgar, mas como diz um amigo nosso , não tenho "papas na língua" e por isso não falo com quem não conheço, evitando maiores estardalhaços. Estranho assumir é que também criamos vínculos na invisibilidade, relações que muitas vezes não sabemos descrever... então quando acontece alguma coisa q nos tira da zona de conforto nos abala e confunde de repente. Quando uma das pessoas não vai estar na mesa do bar, em silêncio, ou interagindo com as outras, porque algo ruim aconteceu filtramos uma espécie anômala de saudade, daquilo que nunca se estabeleceu e mesmo assim existe. Assim passou o tempo sem que eu tivesse feito nada a respeito dessa saudade, a respeito de tanta coisa que se tem vontade de falar quando a pessoa está presente, mas nesses instantes aparecem todas as papas que a língua não tinha e engulo a seco qualquer comentário com medo de ser impertinente. Tanta gente desagradável já sentou na nossa mesa, e tantas vezes após uma frase esdrúxula olhávamos um para a cara do outro e fazíamos um meneio de cabeça que continha uma tese ou um palavrão, sem que tivéssemos dito nada... É mais fácil fingir sempre que nada aconteceu, ou talvez mais cômodo como gosto de dizer, mas essa semana dei um passo à frente e guardei a vergonha no bolso. Respirei fundo, fiquei vermelha mais umas duas ou três vezes e fui visitá-lo, acompanhada de um batalhão de gente, obviamente. Ficou claro que está bem e que estará conosco na mesa do bar muito em breve, me senti feliz de ver o quanto melhorou, logo poderemos matar a saudade desses momentos. Compreendo agora que esse bando de sentimentos confusos não serve para merda nenhuma e que numa próxima posso não ter tempo de voltar atrás. É nítido o mundo gritando nos meus ouvidos esperando que eu tenha alguma reação.

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